Cinephylum - Matinê e Papos Psicanalíticos Programação de 2026

Mostra Peter Grennaway
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Apresentação
A Última Tempestade ou O LIvro de Próspero
As adaptações fílmicas das peças de Shakespeare tornaram-se popularmente conhecidas nos últimos tempos através, principalmente, de Kenneth Branagh. A Última Tempestade, é uma adaptação considerada excêntrica, assinada por Peter Greenaway, um cineasta europeu reconhecido por suas experimentações com imagens no cinema atual.
A literatura é um sistema de signos que usa as palavras impressas e imagens mentais criadas, a partir delas, para concretizar o texto, de modo que possa ser lido e compreendido. O cinema também é um sistema de signos que usa uma aparelhagem capaz de criar imagens visíveis e concretas, que são os principais elementos na realização do texto (fílmico), de modo que possa também ser “lido” e compreendido. Quando se adapta um texto escrito para o cinema, uma tradução intersemiótica acontece, pois se está traduzindo de um sistema semiótico para outro.
Peter Greenaway adapta tal enredo para a tela através de uma visualização elaborada, resistindo à autoridade do texto canônico (apesar de utilizar os diálogos integralmente). Ele combina pintura, música, imagem, caligrafia, entre outras formas de expressão artística, para fazer de seu filme um pastiche intertextual, resultado de seu estilo.
O filme privilegia as sobreposições de imagens na tela e o uso de molduras, “flashbacks”, palavras escritas na tela e mesclagem de vozes.
Cada tradução é o reflexo do zeitgeist em que é realizada. Greenaway, pioneiro na discussão sobre as possibilidades da tecnologia moderna na arte. O recurso de HDTV e o uso da imagem digital realçam a animação cinemática e provocam tensão entre ‘representação’ e ‘criação original’. Veremos com esses elementos se materializam no filme.

03
Apresentação
O Livro de Cabeceira
Em meados dos anos 80, ele se tornou uma febre entre os cinéfilos que formavam filas quilométricas para ver seus filmes nos principais festivais de cinema do mundo. No Brasil, não era diferente, tanto na Mostra Internacional de São Paulo como no Festival do Rio.nos quais foram exibidos títulos como "O Contrato do Amor" (1982), "Zoo: Um Z e Dois Zeros" (1985), "A Barriga do Arquiteto" (1987) e, talvez o seu cult maior, "O Cozinheiro, o Ladrão, Sua Mulher e o Amante" (1989).
Mas, nada que se comparasse com a sensação que foi o belíssimo e arrebatador "O Livro de Cabeceira" (1995), com sua poesia erótica (incluindo a tão comentada nudez de Ewan McGregor). É claro que estamos falando do cineasta Peter Greenaway, que realiza filmes como quem escreve poesia ou pinta quadros na tela do cinema.
Em texto publicado na Folha de S. Paulo, em 1996, o jornalista Amir Labaki escreveu, se referindo à apresentação de "O Livro de Cabeceira" no Festival de Cannes daquele ano, que o longa "superlotou salas, acumulou aplausos e se tornou um autêntico sucesso de público". Algo que, segundo Labaki, "não acontecia ao cineasta britânico Peter Greenaway desde a explosão com 'O Cozinheiro, o Ladrão, Sua Mulher e o Amante'".
Nenhuma surpresa, mesmo para o diretor, que reconheceu à Folha: "Eu o considero, dentre meus filmes, um daqueles que mais diretamente se oferece ao espectador". Filmes Cults

Apresentação
O Bebê Santo de Mâcon
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Uma representação vívida do próprio imaginário de Peter Greenaway, e não uma tentativa de reprodução realista do mundo cotidiano.
Dirige seu roteiro que apresenta como uma peça teatral filmada, o filme leva o que é visto no palco a intervir sobre o que está além dele, transformando-se numa poderosa e chocante alegoria sobre a transformação da verdade e sobre a forma como a corrupção se espalha por todos os níveis da vida social. “Herdeiro” de Buñuel e Fellini.
Em "O Bebê Santo de Mâcon" ("The Baby of Mâcon", 1993), Peter Greenaway leva ao extremo um lugar-comum que já vinha tentando provar ao longo de sua obra como se estivesse apresentando uma descoberta revolucionária: a vida é um teatro. (Folha de São Paulo, 1994).
Greenaway tenta mostrar que teatro e vida são a mesma coisa, que a vida (a natureza) se manifesta dentro do teatro (a cultura) e vice-versa. E o que podia parecer uma espécie de autocrítica contra o culturalismo pós-moderno se converte uma artimanha ilusionista. (BERNARDO CARVALHO).

01
Apresentação
O Cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante.
Peter Greenaway aproxima-se da intensidade de uma apresentação ao vivo ao retratar, com vigor, as cenas de 'O Cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante'. O ambiente surrealista e as personalidades singulares dos personagens contribuem para uma atmosfera de desconforto e imprevisibilidade, mantendo o espectador imerso sob a influência do proprietário Spica no luxuoso restaurante Le Hollandais. Trata-se de uma obra notável pela originalidade, cuja relevância persiste ao abordar com profundidade temas acerca da natureza humana.
“(...) observaremos com horror e prazer, não só a vileza, a degradação e a sordidez do ato, mas também a paixão e o vigor que podem surgir daí, como uma estrela que do alto brilha para nos provar a nossa pequenez e insignificância”.

Cinema e Psicanálise
O campo de interação entre a psicanálise e o cinema se justifica por múltiplas razões, que vão desde suas origens históricas comuns até a natureza de suas linguagens e seus efeitos no espectador. Ambas nasceram em 1895 mudaram a história e a subjetividade:
-Em Paris os irmãos Auguste e Louis Lumière fizeram a primeira projeção cinematográfica da história "Chegada do Trem à Estação Ciotat". https://www.youtube.com/watch?v=VScyygFlqg8
-Em Viena, Freud desenvolveu seus primeiros escritos psicanalíticos "Projeto para uma Psicologia Científica e Estudos sobre a Histeria", e assim, o mundo nunca mais foi o mesmo.
Há cento e trinta anos a sétima arte e psicanálise caminham entre palavras, cenas, emoções, interpretações, sentido e desejo.
(...)"a técnica cinematográfica é a única que permite uma rapidez de sucessão das imagens que corresponde mais ou menos às nossas faculdades de representação" e que "o futuro do filme poderá contribuir muito para a nossa constituição psíquica". Lou Andreas-Salomé, 1913.
A experiência de assistir a um filme em uma sala escura, em um estado de suspensão temporal, é frequentemente comparada ao ato de sonhar. O cinema, assim como o sonho, utiliza uma linguagem de imagens que condensa e desloca significados, permitindo a expressão de conteúdos que escapam ao controle consciente.
O cinema dramatiza conflitos, simboliza traumas e dá forma ao desejo e a fantasia que estão recalcados ao nosso saber. Filmes, histórias permitem ao espectador vivenciar, de forma segura e por meio da identificação com personagens e narrativas, situações "perigosas ou proibidas", promovendo uma discussão sobre a subjetividade humana e as relações turbulentas do sujeito com seu desejo e com a sociedade.
A psicanálise, por sua vez oferece um arcabouço teórico de complexos conceitos para a análise fílmica, permitindo novas leituras e interpretações dos filmes. Da mesma forma, o cinema, como manifestação artística e cultural, serve como um vasto material para a compreensão da condição humana e dos processos psíquicos.
O cinema não apenas reflete realidades, mas também constrói representações sociais e explora o zeitgeist da subjetividade em suas diversas facetas. A psicanálise, ao focar na experiência da existência e nos enredamentos do sujeito, encontra no cinema um campo fértil para observar como essas questões são representadas, vivenciadas e elaboradas.
Regina Lise
Nosso convite é para um colóquio sobre o argumento trazido pelo cinema perpassado sob o olhar psicanalítico.
Peter Greenaway escreve cinema, portanto, investigar pontos de contato da palavra cinematografada com a psicanálise em sua obra revela, por meio de livros, listas, números, vingança e redenção, a posição do sujeito e os caminhos percorridos na trilha do desejo.
Viviane B. Balarotti


