Cinephylum - Matinê e Papos Psicanalíticos Programação de 2026

Mostra Peter Grennaway
02
Apresentação
O Bebê Santo de Mâcon
Uma representação vívida do próprio imaginário de Peter Greenaway, e não uma tentativa de reprodução realista do mundo cotidiano.
Dirige seu roteiro que apresenta como uma peça teatral filmada, o filme leva o que é visto no palco a intervir sobre o que está além dele, transformando-se numa poderosa e chocante alegoria sobre a transformação da verdade e sobre a forma como a corrupção se espalha por todos os níveis da vida social. “Herdeiro” de Buñuel e Fellini.
Em "O Bebê Santo de Mâcon" ("The Baby of Mâcon", 1993), Peter Greenaway leva ao extremo um lugar-comum que já vinha tentando provar ao longo de sua obra como se estivesse apresentando uma descoberta revolucionária: a vida é um teatro. (Folha de São Paulo, 1994).
Greenaway tenta mostrar que teatro e vida são a mesma coisa, que a vida (a natureza) se manifesta dentro do teatro (a cultura) e vice-versa. E o que podia parecer uma espécie de autocrítica contra o culturalismo pós-moderno se converte uma artimanha ilusionista. (BERNARDO CARVALHO).
01
Apresentação

O Cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante.
Peter Greenaway aproxima-se da intensidade de uma apresentação ao vivo ao retratar, com vigor, as cenas de 'O Cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante'. O ambiente surrealista e as personalidades singulares dos personagens contribuem para uma atmosfera de desconforto e imprevisibilidade, mantendo o espectador imerso sob a influência do proprietário Spica no luxuoso restaurante Le Hollandais. Trata-se de uma obra notável pela originalidade, cuja relevância persiste ao abordar com profundidade temas acerca da natureza humana.
“(...) observaremos com horror e prazer, não só a vileza, a degradação e a sordidez do ato, mas também a paixão e o vigor que podem surgir daí, como uma estrela que do alto brilha para nos provar a nossa pequenez e insignificância”.

Cinema e Psicanálise
O campo de interação entre a psicanálise e o cinema se justifica por múltiplas razões, que vão desde suas origens históricas comuns até a natureza de suas linguagens e seus efeitos no espectador. Ambas nasceram em 1895 mudaram a história e a subjetividade:
-Em Paris os irmãos Auguste e Louis Lumière fizeram a primeira projeção cinematográfica da história "Chegada do Trem à Estação Ciotat". https://www.youtube.com/watch?v=VScyygFlqg8
-Em Viena, Freud desenvolveu seus primeiros escritos psicanalíticos "Projeto para uma Psicologia Científica e Estudos sobre a Histeria", e assim, o mundo nunca mais foi o mesmo.
Há cento e trinta anos a sétima arte e psicanálise caminham entre palavras, cenas, emoções, interpretações, sentido e desejo.
(...)"a técnica cinematográfica é a única que permite uma rapidez de sucessão das imagens que corresponde mais ou menos às nossas faculdades de representação" e que "o futuro do filme poderá contribuir muito para a nossa constituição psíquica". Lou Andreas-Salomé, 1913.
A experiência de assistir a um filme em uma sala escura, em um estado de suspensão temporal, é frequentemente comparada ao ato de sonhar. O cinema, assim como o sonho, utiliza uma linguagem de imagens que condensa e desloca significados, permitindo a expressão de conteúdos que escapam ao controle consciente.
O cinema dramatiza conflitos, simboliza traumas e dá forma ao desejo e a fantasia que estão recalcados ao nosso saber. Filmes, histórias permitem ao espectador vivenciar, de forma segura e por meio da identificação com personagens e narrativas, situações "perigosas ou proibidas", promovendo uma discussão sobre a subjetividade humana e as relações turbulentas do sujeito com seu desejo e com a sociedade.
A psicanálise, por sua vez oferece um arcabouço teórico de complexos conceitos para a análise fílmica, permitindo novas leituras e interpretações dos filmes. Da mesma forma, o cinema, como manifestação artística e cultural, serve como um vasto material para a compreensão da condição humana e dos processos psíquicos.
O cinema não apenas reflete realidades, mas também constrói representações sociais e explora o zeitgeist da subjetividade em suas diversas facetas. A psicanálise, ao focar na experiência da existência e nos enredamentos do sujeito, encontra no cinema um campo fértil para observar como essas questões são representadas, vivenciadas e elaboradas.
Regina Lise
Nosso convite é para um colóquio sobre o argumento trazido pelo cinema perpassado sob o olhar psicanalítico.
Peter Greenaway escreve cinema, portanto, investigar pontos de contato da palavra cinematografada com a psicanálise em sua obra revela, por meio de livros, listas, números, vingança e redenção, a posição do sujeito e os caminhos percorridos na trilha do desejo.
Viviane B. Balarotti


