Rodas de Quintas - Envelhe$ e R - O Sujeito e o Real
Estamos habituados a falar sobre a especificidade da clínica com crianças. No entanto, a nossa contemporaneidade, impulsionada pelos avanços da ciência, tem promovido uma longevidade inédita. Atualmente, uma parcela significativa da população brasileira está acima dos 60 anos, com a maioria mantendo-se ativa no fazer e no viver. Apesar disso, diversas interrogações conferem uma singularidade a esse tempo cronológico: o futuro, o trabalho, os vínculos, a potência, a família, as perdas, o próprio corpo e a finitude, entre tantos outros dilemas.
Um tempo distinto se coloca à espreita. O "instante de ver" já não surge de forma tão surpreendente, tampouco o "tempo de compreender" se prolonga; o que se evidencia, de fato, é o trabalho exaustivo de chegar ao "momento de concluir". Esse processo ocorre sob a fantasmática que oscila entre a ilusão de uma juventude impossível e o fantasma de um declínio irrefreável.
Nesse cenário, a presença de oxímoros revela as contradições dessa travessia: inconformidades acomodadas, entusiasmos pacificados, vitalidades comedidas e renúncias compulsórias em prol de uma reorganização de valores.
A especificidade da clínica com o idoso não se resume à pergunta "qual é o seu desejo?", mas sim a "como operou o seu desejo ao longo da jornada percorrida?". Trata-se da contabilidade entre o que se deixou de fazer e o que ainda é possível realizar sob as novas condições subjetivas, sociais e — por que não? — físicas.
Deparamô-nos também com um corpo desconhecido, que já não responde como antes. É verdade que o corpo sempre foi habitado por um certo desconhecimento, mas agora ele parece estar sob "nova administração". De um lado, a ciência opera com seu saber técnico para tentar mantê-lo hígido e jovem. De outro, a mídia vende o ideal da "melhor idade": movimente-se, viaje, leia, ria, ame, faça sexo. A promessa é de que tudo isso garantirá a juventude e prolongará a vida.
Mas o que os idosos que chegam até nós realmente contam? É a partir desses discursos singulares que podemos sustentar uma clínica que se posiciona para além do discurso social.

Programação para 16 encontros
Crônicas do Contardo Calligaris
1. "A obrigação de ser feliz na terceira idade" — Onde ele critica duramente o imperativo social que exige que o idoso seja um jovem fantasiado, viajando e sorrindo o tempo todo, em vez de validar suas questões subjetivas reais.
2. "Elogio da velhice" — Uma reflexão freudiana e crua sobre o corpo que muda, o desprendimento de certas neuroses adultas e a dignidade de envelhecer sustentando o próprio desejo.
3. "Sobre a morte e o morrer" — Um dos seus textos mais sensíveis sobre encarar a transitoriedade sem os panos quentes da negação médica.
4. "Sobre a Transitoriedade" (Sigmund Freud).
5. "O Envelhecer a partir da Perspectiva Psicanalítica" (Estudos contemporâneos).
6. "Transformações do eu na velhice: consequências psíquicas".
7. "O Envelhecer e a Psicanálise" — Capítulos selecionados (Maria Anita Carneiro Ribeiro).
8. Artigos selecionados de Sébastien Dupont sobre a clínica com o idoso.

